Meu amor, minha casa nunca mais foi a mesma desde a sua partida. Tudo desabou e agora eu vejo as estrelas à noite. Passo frio, calor e me molho na chuva porque meu teto quebrou quando você disse adeus, com as malas na porta e uma tristeza imensa no peito. Mas eu te entendo. É difícil ficar quando se tem a opção de conhecer o mundo, desfrutar da vida e viver feliz. Mas eu te pergunto: você não estava feliz? Eu também sei que sou clichê, mas isso não é um defeito e sim uma virtude. Quantos caras você teve na sua vida que chorava ao ver você chorar? Eu sou sensível, meu bem, e hoje eu deixo as culpas de lado para sair dessa foça, dessa poça, desse breu. Está dolorido demais recordar dos momentos que tivemos e que logo foram esquecidos, jogados fora, deixados de lado. Os planos não eram esses, certo? Você nunca quis estar aqui enquanto a agonia do mundo te chamando suplicava nos teus olhos. Eu via. Sentir por nós dois era meu forte até onde deu, até onde meus pés aguentaram meu peso e o seu, até onde os violinos foram roubados e eu tive de gritar por não suportar mais. Eu fui tão forte, você nem sabe. Quando eu ia ao banheiro porque precisava olhar no espelho e respirar pois perder sua presença, seu perfume, era tão degradante… Quando eu ia dormir às sete por medo do escuro das onze e porque você preferia estar escutando música erudita a ter que me abraçar forte e dizer que tudo passaria, assim como cantou Renato Russo. Lembra? Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo… Você nem sabe quantas vezes me bateu a vontade de fugir sem deixar explicação porque os fardos eram maiores que meus sonhos. Meu amor, nada aqui está do jeito como era antes: os livros estão pelo chão e suas guitarras estão quebradas porque um dia desses eu quebrei num acesso de fúria e saudade - a saudade faz isso também -; os filmes melodramáticos estão escondidos e suas fotografias foram recortadas e postas no baú intitulado “memórias de um amor de verão”. Nada aqui está igual e se choro é porque deixou marcas. Porque foi profundo pra mim - como aquela vez que você leu um livro inteiro durante a noite e depois dormimos por três dias consecutivos. Nada está como antes à medida que tudo é muito triste sem a sua presença fulminante. Eu peguei o seu diário hoje e nele estava escrito: eu te amo mesmo que isso me fulmine. Acho que é da Hilda Hilst. Hoje estou perplexo com a solidão dos cômodos e com a casa toda destruída. A solidão está destruindo tudo que ela acha e não-acha aqui, como o pouco que sobrou das suas roupas e dos cigarros, que ficaram na cabeceira da cama. Estou preocupado com os dias que virão e em como eu estarei quando a morte chegar pra mim. Você sabe, amores não matam mas reforçam a queda e anulam a vida. E o que é a morte senão a ausência de vida? Eu te amo como um passarinho morto. Eu te amo como os anjos amam os abismos mas são proibidos de amá-los. Eu te amo como se não houvesse manhã e sua partida não fosse um tapa na minha cara. Eu te amo que esqueço que você fugiu, partiu e foi embora sem deixar adeus, sem deixar sua outra parte que me cabia.